Libertar Portugal da Austeridade

Libertar Portugal da Austeridade

Aula Magna, 30 de Maio de 2013

António Sampaio da Nóvoa

 

Já não suportamos tantos sermões, tantos moralistas, tanta insensibilidade, tanta incompetência, tão curta visão do que somos, do que podemos ser, do que estamos a viver.

É preciso reagir. Este Encontro é um pequeno grande sinal. É mais um contributo para pensar Portugal, para mudar Portugal.

Quero cumprimentar, de forma muito calorosa, o Dr. Mário Soares, a quem se deve esta iniciativa. Quero agradecer a sua juventude, a sua energia, a sua coragem. É uma honra acolher na Aula Magna a iniciativa de um Presidente da República, à qual se associaram distintas personalidades, que saúdo nas pessoas da Dr.ª Rosário Gama e dos Senhores Deputados indicados pelo Partido Socialista, pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda, Ramos Preto, João Ferreira e Cecília Honório.

Vivemos a estranha sensação de que todas as palavras já foram ditas. Estamos cansados, exaustos, custa-nos aceitar que tudo acabe numa parede impenetrável, que nada ouve, que nada sente, e que se limita a repetir: não há alternativa, não há alternativa.

Mas hoje sabemos, de ciência certa e segura, que a austeridade é que não é mesmo alternativa. Isso, sim, é certo e seguro. A dívida pública aumenta. O défice pouco ou nada reduz. O país empobrece. A produção cai. A recessão é cada vez mais profunda.

Por isso, é tão importante o combate para Libertar Portugal da Austeridade, mais um combate pela Liberdade ao qual nos chama o Dr. Mário Soares.

A austeridade é uma ideologia que assenta em visões tecnocráticas que não colam com a realidade, que retiram vida às pessoas, que destroem a economia. Para superar as dificuldades que existem – e ninguém duvida que existem mesmo – é necessário justamente o contrário, que haja mais vida, que haja mais trabalho, que haja mais criação de valor e de riqueza.

Nestes dois anos não houve qualquer medida de fundo, qualquer mudança de futuro para Portugal. A não ser a obsessão contra o Estado, contra o Estado Social, mas isso é o passado, não é o futuro.

Tudo já foi dito. Agora, é preciso abrir caminhos, construir uma esperança que ninguém nos dará, a não ser nós mesmos. Porque não podemos perder a pátria, nem por silêncio, nem por renúncia (Sophia).

Portugal é um país com grandes fragilidades ao longo da sua história. Os sacrifícios da nossa geração têm de ser feitos para ultrapassar estas fragilidades, e não para que tudo continue na mesma.

De nada nos serve o desenvolvimento ilusório das últimas décadas, feito do que vinha de “fora” e não do que estava “dentro”. É preciso um outro desenvolvimento, dentro de nós, certamente com menos dinheiro, mas, por isso mesmo, com mais atenção à dignidade das pessoas, à solidariedade e à sustentabilidade (um desenvolvimento em paz com a Terra e com o Mundo).

Por muito estranho que nos possa parecer, Portugal tem hoje, pela primeira vez na sua história, condições, como nunca teve, para superar os seus problemas endémicos. Abril abriu-nos à vida. Começamos a ter cultura, na escola e na ciência. Começamos a ter pessoas qualificadas. Começamos a ter infra-estruturas aceitáveis. Começamos a pensar e a viver de outra maneira.

E é, por isso, que sentimos ainda mais esta revolta, este desespero de quem está a “morrer na praia”, às mãos de visões curtas, estreitas, desumanas, do que somos e do que poderíamos ser.

Perante a pobreza, perante o desemprego, perante esta lenta agonia, precisamos de mudar de política, e de vida, precisamos de ideias que levantem Portugal.

Porque não há nada mais urgente do que o longo prazo, do que uma ideia de futuro.

Contrariamente ao que foi o rumo da nossa História, temos de investir no território (incluindo o território que é mar) e no conhecimento (na cultura escolar e científica).

Investir no território significa o contrário do que fazemos há muito tempo, e que a austeridade veio acentuar ainda mais. Significa valorizar a terra e o trabalho, significa limitar a nossa dependência em relação ao exterior, significa reforçar a autonomia das nossas decisões (Vitorino Magalhães Godinho).

O que só é possível se continuarmos a investir também no conhecimento, e se formos capazes de o colocar ao serviço da sociedade e da economia. Não nos desenvolveremos importando tecnologias feitas, mas criando cultura científica e tecnológica própria. Não nos desenvolveremos desperdiçando uma geração capaz, e bem formada. “O trabalho precário é um cancro para o desenvolvimento económico” (Vitorino Magalhães Godinho). O desemprego jovem é a morte a prazo da sociedade.

É na ligação entre o território e o conhecimento que encontraremos as soluções para transformar as nossas circunstâncias históricas, para ultrapassar as fragilidades de sempre do nosso país.

Para isso, precisamos de libertar Portugal da austeridade. É uma batalha que se trava na Europa e em Portugal, no parlamento e na sociedade.

O que se passa hoje na Europa é inaceitável. Em vez da coesão e da solidariedade, a submissão e a chantagem. Sou europeu até ao osso, e não imagino outro destino para o meu país. Mas que Europa é esta, sem eira nem beira, cada vez mais perdida e fragmentada?!

É preciso renovar a política. Nos partidos e na sociedade. As instituições da República têm que funcionar com os olhos no bem comum, no bem público, com equilíbrio e independência, combatendo a promiscuidade entre a política e os negócios.

É preciso integrar a pluralidade de vozes, de presenças, que se têm manifestado na rua. É preciso compreender os movimentos sociais, na sua imensa diversidade e complexidade.

Sobretudo, é preciso reagir contra o desalento, um desalento que rapidamente se transforma em apatia. A nossa responsabilidade política dura todos os dias, e não dura apenas um dia de quatro em quatro anos.

Uma coisa vos digo: ninguém nos tirará deste inferno, a não ser nós mesmos.

“Um povo não morre porque o oprimem, mas morrerá certamente se, antes da luta, abdica” (Basílio Teles).

Vemos ou não vemos?! Se vemos como é que aceitamos esta pobreza que se faz miséria, este desemprego que não pára?

Ouvimos ou não ouvimos?! Se ouvimos como é que aceitamos o abandono do país, a partida outra vez lá para fora, a desertificação por todo o lado?! Como é que aceitamos que o país esteja a perder as pessoas, que são a nossa vida, que são a vida do país, o único futuro pelo qual vale a pena lutar?! E os que ficam, que ficam sem alento, condenados a uma espécie de sobrevivência resignada…

Nada conseguiremos se não despertarmos as energias adormecidas, se as não organizarmos. As nossas diferenças não podem ser o que nos separa, mas sim o que nos une, o que nos junta, o que nos mobiliza em torno de uma alternativa à política de austeridade.

Não cantaremos o medo. Não deixaremos que o país sejam só três sílabas, de plástico, que sai mais barato (Alexandre O’Neill). 

Isto é apenas um encontro. Pois é. Mas um encontro pode decidir uma vida. A vida de uma pessoa. A vida de um país. Para, isso é preciso que ele seja união, re-união, partilha, convergência de energias e de vontades. Não há receitas feitas, prontas, miraculosas. Mas podemos falar, conversar, e agir em conjunto.

Chegou de novo o tempo da liberdade. Como na Cantiga de Abril, escrita por Jorge de Sena:

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,

esses pobres sem futuro,

essa emigração medonha,

e a tristeza uma peçonha

envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,

sai o povo logo atrás:

estala enfim altiva e nua,

com força que não recua,

a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Aqui estamos. Impacientemente. Pela vida, e não pela morte. Pelo mais, e não pelo menos. Pela esperança, e não pelo desânimo. Pelo futuro, por um futuro presente, aqui e agora. Pelas pessoas. Pelo trabalho. Pela liberdade. A liberdade sempre. Por tudo o que nos junta. Por todos. Por Portugal.