Intervenção no Congresso do Partido Socialista

Congresso do Partido Socialista

Lisboa, 29 de Novembro de 2014

António Sampaio da Nóvoa

 

Saúdo todos os participantes e agradeço o convite para intervir neste Congresso. Venho dizer-vos “presente”. Venho dizer-vos que, neste tempo tão duro, ninguém tem o direito de se omitir, de se demitir, de ficar em silêncio. Temos de estar presentes, de nos fazer presentes num projecto com futuro para Portugal. É o nosso dever. É a nossa obrigação.

Quem sente, não consente. Não se resigna perante as desigualdades, perante a pobreza, perante políticas que nos tornam cada vez mais dependentes e, por isso mesmo, menos livres.

É tempo de abrir um tempo novo para Portugal e para os portugueses.

É disto que vos quero falar, sempre mas sempre, a partir da liberdade, a liberdade de Abril, a liberdade que não é “vazia” (“uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”), a liberdade que é compromisso, que é justiça social, a liberdade livre, a liberdade que faz da realidade do mundo “a nossa pátria comum”.

Esta liberdade não se conforma com o estado de emergência que hoje vivemos, com uma crise que se perpetua, que torna permanente a dívida – uma dívida que tem de ser renegociada –, que torna permanente a dependência, uma crise que se transformou em política – uma política errada de austeridade –, uma crise que atinge os fundamentos da democracia ao tornar os povos reféns de interesses inomináveis.

Precisamos de ideias para uma vida nova, de “ver com olhos livres”, com criatividade e imaginação.

Esta vida nova tem de valorizar a economia e o trabalho em vez de reduzir o mundo ao “financismo” de um casino sem regras, tem de construir uma existência sóbria e sustentável que ponha fim ao consumo frenético que destrói a Terra.

Para esta vida nova, precisamos de um Estado Social sólido, um Estado Social que este Governo tem posto em causa, ano após ano.

Nada se fará sem uma fortíssima consciência social e sem um investimento persistente no conhecimento.

Consciência social com conhecimento dentro, porque é na qualificação, na criação científica e na capacidade de transpor o conhecimento para a economia e para a sociedade que está o nosso futuro. É esta a ruptura central com o nosso destino de sempre. É esta a ruptura que trará um novo rumo para Portugal.

O melhor do nosso país encontra-se na junção destas duas dimensões: na economia social e solidária, nas empresas preocupadas com o impacto social dos seus investimentos, nas organizações que incorporam o conhecimento e a inovação, que valorizam os jovens qualificados, nas instituições da sociedade civil, nas mil e uma realidades que mantêm este país de pé. É aqui que está o futuro.

Mas, para abrir uma vida nova, precisamos de uma nova política, em Portugal e na Europa.

Este Governo deixa um país mais pobre, mais desigual, menos preparado, com desperdício dos jovens e afronta aos mais velhos, um país de desempregados, de emigrados, descrente, sem ânimo e sem esperança

É tempo de mudar de política. É tempo de mudar Portugal.

Para romper o círculo fatal da desconfiança e da desesperança, precisamos da coragem de unir, de reunir, de reagrupar, todas as energias de mudança. Dentro e fora dos partidos. Há política nas instituições e há política nas ruas.

Precisamos de inventar uma “democracia democrática”, aberta às pessoas e aos movimentos sociais, que consagre um direito de participação, e de decisão, para além do voto de quatro em quatro anos.

O caminho aberto nas primárias por António José Seguro e António Costa merece o nosso reconhecimento. Porque uma política que pensa nas pessoas tem de ser feita pelas pessoas. É isto que nos pede a democracia do século XXI.

Uma nova política, em Portugal e na Europa.

Sim, sou europeu em tudo, mas não aceito esta Europa organizada sempre a favor dos mesmos. Uma Europa que já não é de iguais. Uma Europa do trabalho qualificado no Norte e da mão-de-obra barata no Sul. Uma zona Euro desenhada para favorecer a Alemanha e para perpetuar a dependência. Assim, não.

Sou europeu em tudo, mas recuso-me a aceitar que a Europa seja a nossa ruína, uma Europa à deriva, que parece ter mais passado do que futuro, uma Europa sem ideias, sem vigor, sem renovação intelectual. É tempo de mudar a Europa. E este também é o nosso combate.

Mas neste mundo, felizmente cada vez menos eurocêntrico, Portugal tem de usar a sua posição europeia para se abrir ao mundo, sobretudo ao Atlântico e à língua portuguesa. O nosso conceito estratégico deve assentar num país que investe no seu território, fortemente enraízado na terra “Europa”, mas sempre ligado ao mar português. Nesta realidade está tudo o que marca, e distingue, o nosso papel no mundo.

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Eis alguns dos desafios que temos pela frente. A mudança terá de ser radical, no sentido mais nobre do termo – ir às raízes. E as nossas raízes comuns estão em Abril, na liberdade.

É preciso construir um movimento amplo, aberto à sociedade, aos movimentos sociais, a todas as esquerdas, a todas as forças de mudança que existem em Portugal.

Não há soluções fáceis, mas António Costa sabe que são as lutas fortes que nos fazem fortes, sabe que “a ousadia é metade da vitória”.

António Costa sabe que “cada um tem o infinito que merece”, e sabe, sobretudo, que em todos os gestos temos de honrar o esforço diário dos portugueses. Desinteressadamente.

António Costa tem consigo as ideias e as causas que permitem abrir um tempo novo para Portugal, um tempo de alternativas, um tempo que não seja de regresso ao mesmo tempo de sempre.

Com coragem. Sem medo.

O futuro depende de nós, de cada um de nós. Da nossa capacidade, do nosso entusiasmo, da nossa entrega. Sem vender nenhuma ilusão, nem uma só ilusão, mas dando a cada português o direito à palavra, à dignidade, ao futuro.

Este é o tempo, o tempo de mudar Portugal. E neste tempo temos de estar presentes. Todos. Foi por isso que aceitei estar aqui hoje convosco. Porque não quero ver a “minha pátria parada à beira de um rio triste”, porque não quero perder Portugal, “nem por silêncio, nem por renúncia”.

Este é o tempo, o nosso tempo, o tempo de mudar Portugal.