Apresentação da Candidatura (Lisboa, Teatro da Trindade)

Discurso de apresentação da candidatura a Presidente da República

António Sampaio da Nóvoa

Teatro da Trindade, 29 de Abril de 2015

 

Este é o primeiro dia, inteiro e limpo, o primeiro de muitos dias que nos vão juntar, assim o desejo, num caminho de mudança e de esperança, por Portugal.

Muito obrigado pela vossa presença, amiga – de Valença, a minha terra, a Vila Real de Santo António –, generosa, pela vossa energia, pelo vosso entusiasmo. Sozinhos, nada somos. Juntos, podemos fazer a diferença.

Quero agradecer, muito em particular, a presença do Dr. Mário Soares e do Dr. Jorge Sampaio. Neles, reconheço um legado de liberdade, de luta por causas sociais, pela igualdade, pela dignidade, pela paz, neles, reconheço uma herança que temos a obrigação de honrar e de renovar.

Dr. Mário Soares – Em 1986, foi difícil, mas foi possível. Dr. Jorge Sampaio – Em 1996, foi difícil, mas foi possível. Em 2016, também vai ser difícil, mas também vai ser possível. Muito e muito obrigado pela vossa presença.

 

Vivemos anos duros, duríssimos, de uma austeridade que tornou o nosso país mais frágil, que trouxe a pobreza e a miséria de volta a muitas famílias portuguesas; de uma austeridade que criou mais desigualdades, que forçou a emigração, que aumentou a dívida.

Que política é esta? Que não tem uma única ideia de futuro para Portugal.

Que país é este? Que parece sem vontade, sem pensamento, sem rumo.

Que política é esta? Que depois da crise nos anuncia mais crise, uma crise crónica, que priva os cidadãos de futuro, que os faz desconfiar das instituições e da capacidade do Estado democrático para defender o bem público e o interesse colectivo.

Não podemos perder o país que conseguimos levantar nas últimas décadas, não podemos perdê-lo, nem por silêncio, nem por renúncia, não podemos deixar que a crise se “normalize”, se eternize, e que deite por terra quarenta e um anos de democracia, destruindo um a um os ideais de Abril.

 

O que faz falta, o que nos faz falta, é uma outra visão, uma outra ideia do que pode ser Portugal no século XXI.

É em nome desse outro projecto, desse outro destino, que venho aqui, hoje, declarar-vos solenemente, e declarar a todo o país, que sou candidato a Presidente da República Portuguesa.

Não venho para deixar tudo na mesma. Venho para juntar os portugueses em torno de um projecto de mudança, para restaurar a confiança na nossa democracia e no nosso futuro. Com esperança. Com determinação. Com a coragem que os portugueses sempre revelaram nos momentos mais difíceis da sua história.

Faço-o com a responsabilidade maior que aprendi na vida: a obrigação de não ficar em silêncio, de não me omitir, de não me esconder, sobretudo num tempo tão duro, num tempo em que temos, todos, de estar presentes, de nos fazer presentes, sem hesitações, sem calculismos, sem medo.

Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo. Bebe-se a coragem até de um copo vazio.

Se for eleito Presidente da República, exercerei as minhas funções com a absoluta determinação e liberdade de quem se entrega a uma causa maior, com total independência, com isenção, com um enorme sentido de responsabilidade.

Não serei um espectador impávido perante a degradação da nossa vida pública. O Presidente da República tem de restaurar a confiança dos portugueses no Estado de direito, nas instituições, na autoridade moral e na credibilidade daqueles que desempenham um cargo público.

Tudo farei para reforçar a democracia, para estimular governos e oposições a cumprirem as suas funções com sentido reformista e de Estado, para consolidar a cooperação institucional, para promover uma maior participação dos cidadãos na vida política.

Darei uma atenção muito especial às forças armadas, e à sua dignificação, aos militares e aos antigos combatentes, não abdicando da palavra que pertence ao Presidente da República no que diz respeito à mobilização das forças armadas para missões no estrangeiro.

Não permitirei, nunca, que o interesse nacional seja dominado por grupos de pressão, por corporações ou por interesses ilegítimos. Sejam eles quais forem. A ética republicana obriga-nos a colocar o serviço público acima dos interesses particulares.

Vou buscar a minha inspiração às lições de vida que tenho conhecido no país inteiro, nas famílias, em associações e movimentos, em instituições sociais e culturais, em iniciativas empresariais, na administração pública, lições de integridade, exemplos extraordinários, de dedicação e de coragem, tantas vezes ignorados.

Candidato-me para unir os portugueses, para juntar anseios de mudança, para celebrar com os portugueses pactos de futuro, e não de passado, pactos de mudança, e não de resignação. Tudo na mesma, é que não.

Não hesito um segundo. Porque sei que em torno de uma candidatura à Presidência da República se podem unir lutas generosas por um país diferente, por uma sociedade aberta, plural, inclusiva.

Estou aqui. Estamos aqui. Vamos a isto, que já se faz tarde.

 

Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Chegou a hora de emergirmos da noite e do silêncio.

O meu Compromisso com os Portugueses fica selado através desta declaração e de uma carta de princípios que será apresentada dentro em breve.

Sei bem que o Presidente não governa, nem legisla, que tem um poder moderador e regulador. Não deve, por isso, apresentar-se aos portugueses com um programa de governo. Mas o Presidente tem uma enorme responsabilidade, que recebe através da eleição por sufrágio universal e directo. Tem, por isso, a obrigação de expor, com clareza, as suas ideias para Portugal, dizer o que pensa sobre as grandes questões, agitar ideias, agir com um pensamento de futuro.

Sim, um Presidente pode fazer a diferença, e nessa diferença está muito do nosso destino. É por isso que estou aqui. É por isso que estamos aqui.

Nas últimas décadas, os portugueses criaram condições como nunca tiveram no passado. No dia-a-dia das suas vidas. Na cultura e na educação. No conhecimento e na ciência. Na tecnologia e na inovação. Na criação literária e artística. Nas infra-estruturas e no território. Em tantos domínios que seria fastidioso enumerá-los. Não deixaremos que tudo isto volte atrás.

Nenhum de nós consegue prever o futuro, nem sequer o futuro próximo, mas podemos preparar-nos, podemos consolidar as nossas capacidades, reforçar os nossos centros de ciência, de tecnologia e de inovação, investir nas pessoas, nos recursos da terra e do mar, no desenvolvimento das nossas estruturas produtivas.

Está aqui a chave para as sociedades do século XXI, sociedades que têm de ser capazes de produzir conhecimento e riqueza, para assim se relacionarem, com independência, num mundo global de interdependências.

 

Para isso, precisamos de um novo posicionamento geoestratégico, no mundo e na Europa.

Depois do último ciclo de quarenta anos, precisamos agora de reinventar uma visão estratégica para Portugal, que não se feche na Europa, e que se abra ao mundo e, em particular, ao mundo da língua portuguesa. A língua permite-nos identificar as ligações que, para nós, serão decisivas no plano cultural, mas também económico e político. A força de Portugal no século XXI vai assentar, grandemente, na compreensão desta realidade, que tem consequências profundas no nosso modelo de desenvolvimento, na nossa organização interna e nas nossas relações externas.

É o reforço destas ligações, sobretudo no Atlântico Sul, que permitirá também consolidar a nossa geografia europeia. Precisamos de compreender, e de nos aliar, às forças de mudança e de renovação que, timidamente, se vão desenhando. É com estas forças que temos de trabalhar, pela democratização da União, pelos valores da coesão e da solidariedade, por responsabilidades partilhadas num núcleo duro de desafios comuns, onde, entre outras, são centrais as questões do emprego, da segurança, das migrações, da política externa e de vizinhança, sem esquecer as políticas financeiras que devem abrir soluções viáveis para o pagamento das dívidas soberanas.

Serei um porta-voz dos interesses de Portugal no mundo, da nossa afirmação externa e do nosso papel na construção de pontes, na comunidade internacional e nas instâncias multilaterais.

Até porque a lição principal da nossa história é que a presença no mundo e na Europa não pode ser nunca ausência em nós, no nosso território (que é terra e que é mar), na nossa inteligência, na nossa capacidade de intervenção e de acção própria.

É por isso que não podemos voltar atrás no caminho do conhecimento, da educação e da cultura.

É por isso que não aceitamos que o Estado deixe de assumir investimentos estratégicos em sectores decisivos para o nosso futuro.

É por isso que não podemos aceitar o desperdício de jovens, de jovens qualificados, a emigração forçada que manda para o estrangeiro “o melhor de nós”, que impede a normal renovação das gerações, tudo erros e mais erros, dramáticos, que estão a pôr seriamente em causa a sociedade portuguesa e o seu futuro.

Como Presidente da República esta será uma das minhas grandes causas: promover uma estratégia nacional de valorização do conhecimento e dos jovens, para conseguir que levem a sua vitalidade à economia e à sociedade, uma economia inovadora, de alta intensidade tecnológica, com fortíssimas preocupações sociais e ambientais.

Em última análise, é aqui que está a liberdade, é aqui que estão as condições da nossa soberania, é aqui que está a possibilidade de nos relacionarmos livremente com os outros povos.

 

Mas preparar-nos para o futuro significa, também, compreender a importância da coesão social e territorial.

Se for eleito, serei um Presidente presente, junto das pessoas, capaz de ouvir, de cuidar, de proteger, de promover a inclusão e a diversidade. Quero dizer-vos, olhos nos olhos, que não me resignarei perante a destruição do Estado Social, nem perante situações insuportáveis de pobreza, de desemprego e de exclusão, nem perante a precarização do trabalho, nem perante quaisquer outras circunstâncias que ponham em causa a dignidade humana.

Se for eleito, exercerei as minhas funções o mais próximo possível dos portugueses, em todo o território nacional, no continente e nas regiões autónomas, para honrar o poder local, para honrar as autonomias dos Açores e da Madeira, mas também junto da diáspora, para poder falar, para poder ouvir, sobretudo para poder agir com o conhecimento que vem da experiência de vida de cada pessoa, de cada lugar, de cada história.

Na minha acção presidencial, estarei contra todas as formas de discriminação, em razão do sexo, da raça, da religião, da orientação sexual, ou por qualquer outra razão. Nas minhas intervenções, cuidarei de promover o papel e a participação das mulheres, condição fundamental para que haja maior igualdade na sociedade portuguesa.

 

Convosco, livre, quero habitar a substância deste tempo, um tempo que exige um Presidente de causas, determinado, que não vira a cara às dificuldades.

Não tenho filiação partidária e nunca exerci cargos políticos, no sentido estrito do termo. Este facto não me aumenta, nem me diminui, mas marca uma diferença.

A questão central é saber se os portugueses querem, ou não, esta diferença, se os portugueses consideram, ou não, que vivemos um tempo em que é preciso alargar o espaço público democrático a cidadãos com outros percursos de vida.

A minha candidatura procura dar corpo a dinâmicas que estão a surgir na Europa e no mundo, que vão além das dicotomias tradicionais Esquerda/Direita, ou outras, e que procuram novos equilíbrios, que traduzem novas dinâmicas de participação de movimentos e de pessoas na vida política.

Quero incentivar e apoiar as acções, de grande generosidade, que se têm desenvolvido em muitos lugares do país, sobretudo nas áreas sociais, e que são prova da responsabilidade e da dedicação das pessoas, através da sua liberdade e da sua capacidade de iniciativa.

Os portugueses sabem quem eu sou e de onde venho, mas não me candidato para ser Presidente apenas de alguns portugueses. Tudo farei para merecer a confiança de todos os portugueses.

E não esqueço que mais de metade dos eleitores se abstiveram nas últimas eleições presidenciais. Sei bem que o nosso combate por um Portugal mais livre, mais justo e mais solidário depende, em grande parte, da vontade destes eleitores, da sua vontade para irem às urnas, para participarem, para se fazerem presentes pelo voto.

 

Não foi fácil a decisão de me candidatar.

Tomo-a com total desprendimento, um desprendimento que me liberta. Quero que os portugueses saibam que, aconteça o que acontecer, renuncio a qualquer outro projecto, na vida política ou económica, para além da minha actividade docente. Quero dizê-lo, hoje, para que não haja dúvidas, para que tudo fique claro nas minhas intenções e motivações.

Tenho comigo a experiência de quase 40 anos como professor, em escolas, na universidade, no conhecimento. Tenho comigo a experiência de governo de uma grande instituição deste país. Tenho comigo a participação nas grandes causas que fizeram a liberdade, antes e depois de Abril.

Ao longo da minha vida, aprendi a distinguir e a proteger o interesse público, a fazer pontes e convergências com pessoas e instituições, a promover o diálogo, a arbitrar consensos, a aprofundar a cooperação, sempre num clima de confiança, sempre com uma visão de futuro, como na fusão das universidades em Lisboa.

Prometo agir com integridade e honradez, respeitando o valor da palavra, que é tão importante para mim, porque as palavras não são só palavras, são ideias, são sentimentos, são pessoas, são compromissos, são história e são futuro.

Não foi fácil a decisão de me candidatar.

Mas sei que quem espera nunca alcança. E sei que neste meu primeiro passo já vai todo um caminho, um movimento que me ultrapassa, que vai muito para além de mim.

Disse, e repito: Portugal tem tudo para ser um país de referência no século XXI. Falta-nos uma vontade, um plano, uma ideia do que queremos e do que podemos ser.

O que vos proponho não é uma ilusão, é uma certeza, é uma esperança. A certeza de que podem contar comigo. A esperança de que, juntos, vamos conseguir mudar Portugal.

 

Temos de ser maiores do que os nossos problemas. Porque só os vencidos tombam no chão do medo.

Chegou o nosso tempo, o tempo de acordar, o tempo de despertar. Acordemos, pois. Despertemos, pois. Vamos a isto, que já se faz tarde.

A minha candidatura está nas vossas mãos. Darei tudo o que puder, o melhor de mim mesmo, mas sei que nada se fará sem o vosso ânimo, sem a vossa energia, sem o vosso entusiasmo.

A campanha eleitoral será realizada com grande contenção de custos e transparência de contas, recorrendo sobretudo às redes que cada um queira dinamizar nas suas terras, no seu trabalho, nas diferentes áreas temáticas. Não tenho outra força a não ser a vossa. Que cada um traga outro amigo também.

Peço a todos que se elevem acima da mediocridade, que não esmoreçam perante as dificuldades. Temos de ser fortes, de seguir em frente, de dar o exemplo.

A política não serve para justificar inevitabilidades, serve para abrir caminhos. Não podemos continuar à espera que nos salvem. A solução está em nós, estará sempre em nós. Foi isso que procurei dizer-vos, de várias maneiras, ao longo deste discurso.

Agora é que é. Que venha a maré cheia, de uma ideia, para nos empurrar.

O futuro ainda demora muito tempo?

Depende de nós, depende da nossa vontade. Vem por essa estrada, amigo vem. A gente ajuda, seremos muitos mais.

Estou aqui. Estamos aqui. Vamos a isto, que já se faz tarde.

Vamos ou não vamos?

Vamos, sim, que os portugueses precisam de nós.

Vamos ou não vamos?

Vamos, sim, que esta é a nossa hora, e quem sabe faz a hora não espera acontecer.

Vamos ou não vamos?

Vamos, sim, por Portugal, pelo Portugal futuro. Sempre.

Viva a República!

Viva a Liberdade!

Viva Portugal!