Sampaio da Nóvoa devolveu a palavra à política ou tem um discurso vazio?

Sampaio da Nóvoa devolveu a palavra à política ou tem um discurso vazio?

Maria João Lopes  

Mesmo evitando a “semântica da ruptura”, antigo reitor é visto como alguém capaz de dar “outra espessura às palavras”

O antigo reitor e candidato presidencial tirou notas de tudo. Elogios à parte, foi sobretudo às críticas que Sampaio da Nóvoa prestou atenção. Alertaram-no para os perigos da “retórica humanista” no discurso político. Pediram-lhe que imprimisse mais “raiva” às palavras. Que definisse claramente as ideias. Depois de terem analisado o discurso do líder do Podemos, Pablo Iglesias, um conjunto de académicos juntou-se ontem na Universidade Nova para reflectir sobre o que diz Sampaio da Nóvoa. Não é por acaso, ele faz um “uso pleno da palavra”.

O que têm de diferente os discursos de Nóvoa? São vazios e retóricos ou, pelo contrário, excessivos para um candidato presidencial? Em análise estiveram os que proferiu no Teatro da Trindade, Lisboa, e no Teatro Rivoli, Porto, na apresentação da candidatura. Os mesmos que dividiram a opinião pública, em artigos e nas caixas de comentários dos sites dos jornais. São discursos “ricos”, que motivam sentimentos de “adesão ou repulsa”, diz José Neves, do Instituto de História Contemporânea da Nova e da organização do seminário.

O professor de História da Universidade do Porto Manuel Loff foi o mais incisivo. Não se coibiu de dizer que, enquanto eleitor de esquerda, se decepcionou com as referências de Sampaio da Nóvoa ao antigo Presidente da República Ramalho Eanes e, mesmo sabendo que o candidato não é um homem zangado, pediu-lhe mais “raiva”, que não evite a “semântica da ruptura”.

“Todos os conselheiros de imagem lhe dirão [para falar] pela positiva, mas desta vez não acredite neles”, afirmou Loff, para quem Nóvoa não deve ficar “simplesmente pela imagem do senhor bondoso”, até porque – disse, arrancando uma gargalhada da audiência – “não vale a pena ter fama de esquerda radical e não a usar”. Apesar de admitir que, numa campanha presidencial, é um exercício difícil, o docente defende que, para estar em sintonia com os problemas actuais das pessoas, a “indignação” dever estar no discurso político.

Para o crítico e jornalista António Guerreiro, Nóvoa faz um “uso pleno da palavra”. Numa época em que na política tem havido “uma expropriação violenta da palavra”, o antigo reitor surge como alguém que pode devolver essa “possibilidade” ao discurso político, dando “uma outra espessura às palavras”. Este tipo de discurso tem, porém – alertou Guerreiro – “perigos e resistências”. É, por vezes, visto como “demasiado vago, lírico”, correspondendo a “uma retórica mais ou menos vazia”.

Há um confronto “nítido” entre duas concepções sobre o que deve ser o discurso político: a esfera da acção e do fazer (dimensão pragmática da linguagem) e, por outro lado, o efeito performativo das palavras (o que podem provocar). E o discurso que valoriza a densidade da palavra tem, por vezes, “má reputação”, lamentou Guerreiro, considerando que, no “ambiente que estamos a viver”, o que existe é uma “política das coisas e não das ideias”.

O professor de Filosofia de Coimbra Alexandre Franco de Sá considerou que se nota “o professor a falar” quando Nóvoa valoriza o tema do desemprego jovem. Também a psicóloga e docente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, Gabriela Moita, entende que o ex-reitor está presente nos discursos. Nóvoa, que acreditava já ter despido essa pele, anotou essa e outra crítica: a de que, pese embora defenda que um Presidente da República deve expor as suas ideias para Portugal com clareza, nem sempre elas aparecem assim nos discursos. “Esta sessão vai dar-me muito trabalho”, admitiu, no fim, o antigo reitor.

 

Público, 13.07.2015