António Sampaio da Nóvoa: “Já estou a pensar como Presidente da República”

António Sampaio da Nóvoa: “Já estou a pensar como Presidente da República”

Ana Sousa Dias

Nasceu em Valença em 1954, com uma mãe dessa mesma terra. O pai é juiz conselheiro jubilado e foi ministro da República nos Açores. Tomané e os quatro irmãos passavam as férias na barafunda familiar do lado paterno, na Casa de Boamense, em Famalicão, onde se juntavam quase 40 primos. Para poder ir jogar para a Académica, aos 16 anos inscreveu-se em Matemática na Universidade de Coimbra, estudos de que não reza a história – foi um tempo de futebol e de entrada nas atividades sociais e políticas. Em Lisboa, em plena revolução, casou-se sem avisar ninguém, sem convidados nem fotografias. O único filho, André, nasceu em 1980 e com ele tem, embora com percursos diversos, uma cumplicidade feita dessa capacidade de mudar de rumo, de procurar novos caminhos. Já escreveram juntos artigos para revistas científicas e o pai diz que a articulação é perfeita, nas diferenças como nas parecenças. Doutorado em Genebra, na mítica escola de Ciências da Educação onde conheceu Jean Piaget, fez outro doutoramento na Sorbonne, em História Contemporânea. Diz que não fica por aqui, que ainda vai fazer um doutoramento em Filosofia “fora do mundo francófono”. Os últimos anos foram de grandes mudanças: morreram a única irmã e a mãe, e assim perdeu o lado feminino do clã. Conseguiu a fusão das universidades de Lisboa. Decidiu candidatar-se à Presidência da República, com um grupo de apoiantes que conta três ex-presidentes. O que é que nunca pode faltar na casa dele? Bolas, bicicletas e cães.

A candidatura de Maria de Belém representa uma preocupação para si?

A candidatura era previsível, já tinha sido lançada e anunciada. É útil e desejável que estas clarificações se deem. Tenho vindo a apelar há meses a essa clarificação, teria sido melhor ter feito isso com mais tempo. Não estou a falar só da Dra. Maria de Belém, falo também dos outros. É um sinal de que as presidenciais não podem ser desvalorizadas, não podem ser uma segunda volta das legislativas, não devem ser um fator para ajustes de contas entre partidos, dentro dos partidos, para lutas de fações ou lutas partidárias. As pessoas têm de se apresentar com coragem, com as suas ideias, e quanto mais cedo melhor.

Não teme que a divisão do eleitorado do Partido Socialista impeça uma votação maior em si?

A minha grande preocupação deste momento é que nos concentremos seriamente nas legislativas. Tudo o que nos possa distrair disso é mau para o país e para uma mudança do ciclo político em nome da qual eu apresento esta candidatura. Há um bocadinho de irritação ou de enjoo, não sei se são estas as palavras certas, com a permanente discussão em torno do que não é essencial. Abrimos os jornais, as televisões e parece que as eleições presidenciais vão ter lugar no dia 4 de outubro e que as legislativas serão daqui a uns meses. Isto é bom para quem quer que a situação não mude, para quem não quer prestar contas destes quatro anos de enorme sofrimento, de uma situação que nos conduziu a um país mais pobre, com menos futuro, com menos esperança. Mas não é bom para quem quer uma mudança do ciclo político. Temos de concentrar-nos nos problemas do país e perceber como podem ser resolvidos. As presidenciais virão mais tarde e é bom que as pessoas tenham ideias para isso e apresentem as suas propostas, mas era bom que elas não perturbassem. Há uma grande perturbação nestes calendários.

Está a criticar Maria de Belém por ter apresentado a candidatura neste momento?

Parece-me um calendário estranho. Há tantos meses que há essa possibilidade, há tantos meses que eu venho fazendo apelos a todos os candidatos para que, com coragem e frontalidade, assumam as suas candidaturas…

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Diário de Notícias, 21.08.2015