Nóvoa “obviamente” daria posse a um governo de esquerda

Nóvoa “obviamente” daria posse a um governo de esquerda

Paulo Pena

Candidato à Presidência elogia “maturidade” dos partidos e deixa um elogio dúbio à entrada de Marcelo Rebelo de Sousa na campanha: “O que se estava a passar não era bom…”

Pouco antes de participar numa mesa-redonda com o título “E agora Portugal?”, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, António Sampaio da Nóvoa falou sobre o diálogo entre os partidos, com vista à formação do novo governo. Fê-lo, usando um advérbio de modo que fez história. Questionado sobre a hipótese de dar posse a um governo apoiado pelos partidos de esquerda, Nóvoa respondeu: “Se estivesse no lugar do Presidente da República, obviamente aceitaria.” O “obviamente” original fora prometido por outro candidato presidencial, Humberto Delgado, em 1958, numa conferência de imprensa no café Chave de Ouro, Lisboa. Só o sentido varia. Delgado prometia demitir Salazar. Nóvoa garante que daria posse a um governo apoiado por PS, PCP e BE.

A justificar esta sua posição, o candidato recordou que desde que se apresentou disponível para ir a votos, há cinco meses, defende que existem “diversas formas de entendimento possíveis”. Esta é mesmo, para Nóvoa, “a marca de diferença” que a sua candidatura introduziu no debate político. Para isso, o candidato contrapõe ao habitual “arco da governação”, formado por PS, PSD e CDS, a ideia de um “arco constitucional” que abranja todos os partidos que se revêem no texto da Constituição. “Não há partidos de primeira ou de segunda, melhores ou piores. O compromisso com a Constituição é o compromisso maior”, sublinhou.

Por isso, esta “fase nova” da vida política merece um elogio do candidato. Os partidos, garante, têm revelado “grande maturidade” na procura de uma solução que garanta “estabilidade política”.

Numa outra “fase nova” entrou a pré-campanha presidencial. Nóvoa qualifica como “muito importante” o anúncio da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Não tanto pela novidade… “Quando eu decidi apresentar a minha candidatura, já era certo que iria existir a candidatura agora apresentada”, ironizou. Antes porque a situação dúbia do seu adversário, enquanto comentador e protocandidato, “não era boa do ponto de vista democrático”. “O que se estava a passar não era bonito, não era bom…” Nóvoa mostrou-se relutante em responder a perguntas sobre Marcelo, mas deixou transparecer o incómodo com a “festa de despedida” que a TVI organizou a Marcelo no último fim-de-semana (veja aqui o vídeo): “Atingiram-se patamares quase impensáveis no último domingo… Há limites. E esse limites foram ultrapassados.”

O candidato participou depois num debate com Eduardo Lourenço, Jorge Miranda, Carvalho da Silva e Pezarat Correia. A moderar esteve a ex-ministra da Cultura do PS Gabriela Canavilhas.

Público, 12.10.2015